Contagem longa

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O dia de hoje no calendário maia corresponde a:
B'ak'tun K'atun Tun Winal K'in Tzolk'in Haab'
"trezena" "vintena" "dia" "mês"

12

19

17

1

2

12

Ik'

Pax


Pormenor da estela 1 de La Mojarra mostrando três colunas de glifos do século II. A coluna da esquerda representa a data 8.5.16.9.9 em contagem longa (lendo de cima para baixo), correspondente ao ano 156 d.C. As duas colunas da direita estão escritas em escrita ístmica.

A contagem longa é um calendário vigesimal não repetitivo, utilizado por várias culturas da Mesoamérica a partir do período pré-clássico tardio. É mais bem conhecido pelos registos maias nos quais foi usado este sistema, porém as inscrições mais antigas são aquelas de Chiapa de Corzo, anteriores à era cristã. A sua ampla difusão na área maia levou a que muitas vezes seja erradamente denominado como calendário maia de contagem longa.

Utilizando um sistema de contagem vigesimal modificado, este registo calendárico identifica os dias decorridos desde a data correspondente a 11 de Agosto de 3114 a.C.[1] no calendário gregoriano. Uma vez que se trata de um calendário não repetitivo foi utilizado para registar por meio de inscrições feitas em monumentos, acontecimentos importantes da vida política de várias cidades, sobretudo no sudeste da Mesoamérica.

Índice

Antecedentes

Entre outros calendários concebidos na Mesoamérica pré-hispânica, dois dos mais largamente utilizados eram o calendário solar de 365 dias (Haab' para os maias e Xiuhpohualli para os astecas) e o calendário cerimonial de 260 dias, o qual se divida em 20 períodos de 13 dias. Este calendário de 260 dias era conhecido como Tzolk'in pelos maias e como Tonalpohualli pelos astecas.

Os calendários Haab' e Tzolk'in identificavam e nomeavam os dias. A combinação de uma data Haab com uma data Tzolk'in era suficiente para identificar uma data específica de modo satisfatório para a maioria das pessoas, pois tal combinação só se repetiria daí a 52 anos, o que era mais do que a esperança de vida geral. Este período de 52 anos (365 x 260 dias) é geralmente designado como ciclo calendárico ou roda calendárica.[2]

Para contagem de períodos maiores do que 52 anos, os mesoamericanos conceberam o calendário de contagem longa.

Períodos da contagem longa

O calendário de conta longa identifica uma data através da contagem dos dias desde 11 de Agosto de 3114 a.C. (no calendário gregoriano proléptico). Em vez de utilizar um esquema de base 10, como a numeração ocidental, os dias da contagem longa eram contabilizados através de um sistema vigesimal. Assim, 0.0.0.1.5 é igual a 25, e 0.0.0.2.0 é igual a 40.

No entanto, a contagem longa não é consistentemente de base 20, uma vez que o segundo dígito a contar da direita apenas conta até 18 antes de voltar a zero. Assim, 0.0.1.0.0 não representa 400 dias, mas sim apenas 360.

A tabela abaixo mostra os períodos equivalentes bem como as designações maias para os mesmos:

Dias Período de contagem longa Período de contagem longa Nº anos solares (aprox.)
1   = 1 K'in  
20 = 20 K'in = 1 Winal 1/18
360 = 18 Winal = 1 Tun 1
7,200 = 20 Tun = 1 K'atun 20
144,000 = 20 K'atun = 1 B'ak'tun 395

Cálculo das datas na contagem longa

Numerais maias.

Numerais mesoamericanos

As datas na contagem longa são escritas com numerais mesoamericanos, conforme a tabela mostrada. Um ponto representa uma unidade e uma barra vale 5. O glifo de concha era usado para representar o conceito de zero. O calendário de contagem longa requeria o zero e representa um dos mais antigos usos do conceito de zero da História.

Ver também História do zero
A face traseira da estela C de Tres Zapotes, um sítio arqueológico olmeca.
Esta é a segunda data em contagem longa mais antiga descoberta até ao momento presente. Os numerais 7.16.6.16.18 traduzem-se em 1 de Setembro, 32 a.C. (gregoriano). Pensa-se que os glifos em redor da data sejam um dos poucos exemplares sobreviventes de escrita ístmica.

Sintaxe

As "datas" em contagem longa são escritas verticalmente, com os períodos de ordem superior (i.e. b'ak'tun) no topo seguidos do número de cada um dos períodos de ordem inferior até à indicação do número de dias (k'in). Como pode ver-se à esquerda, a data em contagem longa na estela C de Tres Zapotes é 7.16.6.16.18.

7 × 144000 = 1 008 000 dias (k'in)
16 × 7200 = 115 200 dias (k'in)
6 × 360 = 2 160 dias (k'in)
16 × 20 = 320 dias (k'in)
18 × 1 = 18 dias (k'in)
  Total de dias = 1 125 698 dias (k'in)

Deste modo, a data na estela C corresponde a 1 125 698 dias desde 11 de Agosto de 3114 a.C., ou 1 de Setembro de 32 a.C..

Nos monumentos maias a sintaxe da contagem longa é mais complexa. A sequência da data é dada uma vez, no início da inscrição, e começa com o chamado GISI (Glifo Inicial da Série Introdutória) lido tzik-a(h) hab' [patrono de mês Haab'].[3] Seguem-se os 5 dígitos da contagem longa, seguidos da data tzolk'in escrita como um único glifo, e de informação suplementar. A maioria destas séries suplementares são facultativas e demonstrou-se que estão relacionadas com a data lunar, por exemplo a idade da lua nesse dia e a extensão calculada para a lunação corrente.[4]

A data é terminada por um glifo referindo o dia e o mês do ano haab' . O texto continua com a descrição da actividade ocorrida naquela data. Abaixo é mostrada uma inscrição de uma data em contagem longa maia.

Origem do calendário de contagem longa

A mais antiga inscrição em contagem longa já descoberta encontra-se na estela 2 de Chiapa de Corzo, Chiapas, México, indicando a data correspondente a 36 a.C..[5] Esta tabela lista os 6 artefactos com as oito mais antigas datas em contagem longa.

Sítio arqueológico Nome Data gregoriana

(baseada em 11 de Agosto)

Dígitos da contagem longa Localização
Chiapa de Corzo Estela 2 10 de Dezembro de 36 a.C. 7.16.3.2.13 Chiapas, México
Tres Zapotes Estela C 3 de Setembro de 32 a.C. 7.16.6.16.18 Veracruz, México
El Baúl Estela 1 6 de Março de 37 7.19.15.7.12 Guatemala
Abaj Takalik Estela 5 20 de Maio de 103 8.3.2.10.15 Guatemala
6 de Junho de 126 8.4.5.17.11
La Mojarra Estela 1 14 de Julho de 156 8.5.16.9.7 Veracruz, México
22 de Maio de 143 8.5.3.3.5
Próximo de La Mojarra Estatueta de Tuxtla 15 de Março de 162 8.6.2.4.17 Veracruz, México

Destes seis sítios, três situam-se na orla ocidental da área maia e três encontram-se várias centenas de quilómetros mais a oeste, levando muitos investigadores a crer que o calendário de contagem longa precede a civilização maia.[6] A estela 1 de La Mojarra, a estatueta de Tuxtla, a estela C de Tres Zapotes, e a estela 2 de Chiapa de Corzo foram inscritas no estilo epiolmeca e não maia. [7] Por outro lado, a estela 2 de El Baúl, foi criada no estilo de Izapa. O primeiro artefacto inequivocamente maia é a estela 29 de Tikal, com a data em contagem longa 292 d.C. (8.12.14.8.15), mais de 300 anos depois da estela 2 de Chiapa de Corzo.[8]

Referências

  1. Segundo a correlação utilizada pela grande maioria dos maianistas. Um cálculo alternativo resulta na data 13 de Agosto de 3114 a.C.
  2. Obviamente, o mesmo se aplicava ao Xiuhpohualli e Tonalpohualli astecas.
  3. Boot, p. 2.
  4. Notável nesta sequência é o glifo com nove formas variantes denominadas G pelos epigrafistas mais antigos. Foi relacionado com o ciclo dos Senhores da Noite conhecido a partir de fontes da época colonial no México Central, havendo outras explicações alternativas. Ver Thompson.
  5. Como clarificação, existem inscrições em contagem longa que se referem a datas mais antigas que 36 a.C., mas que foram feitas muito mais tarde.
  6. Ver por exemplo Diehl, p. 186.
  7. Ver Section #05, "A sketch of prior documentation of epi-Olmec texts", in Peréz de Lara and Justeson (2005).
  8. Coe (2002), p.87.



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